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sábado, 30 de outubro de 2010

Casa do penhasco

Casarão do Anastácio em Pirituba resgata memórias pessoais
Sempre que viajava e passava pela Anhanguera, uma estranha construção, em uma estranha localização me chamava a atenção. No alto do morro, em meio a grandes árvores estava a misteriosa casa, que tanto me despertava curiosidade.
Anos depois, ao entrar na faculdade, precisava escolher minha primeira pauta e coincidentemente, em uma conversa informal, uma colega me falou sobre um casarão “mal-assombrado” que poderia servir para a matéria. Ao construir a pauta, descobri que era justamente o tal casarão que tantas vezes me despertara a imaginação na tentativa de descobrir o que existiria ali.
No dia seguinte, meu destino já estava traçado em direção à Pirituba. Após longas viagens de ônibus e trem, um tempo de caminhada e travessias perigosas na rodovia, finalmente avisto o tão esperado lugar. Olhando de baixo para cima, parecia impossível subir aquele morro cheio de mato, em território totalmente desconhecido, mas ao lembrar como esta casa simbolizava minha infância não hesitei em explorar o misterioso casarão.
Por fora avistamos uma exuberante construção, com grandes janelas, várias entradas e estrutura de pilares aos moldes coloniais. Ao primeiro contato temos a impressão de um lugar mal-assombrado, no entanto, o que realmente existe ao alcance dos olhos, é a vista de uma grande construção deteriorada pela ação do tempo, com muros pixados, telhas destruídas e paredes manchadas e meio derrubadas. Por dentro, azulejos descascados, paredes sem tinta, pisos quebrados, janelas sem vidro, entradas sem porta e, em um dos andares, até ossadas de animais.
A casa me fazia pensar em como deveria ser o tempo no qual era habitada pela Marquesa de Santos e o Brigadeiro Tobias de Aguiar.  Vendo os resquícios da construção original, como pisos de madeira – mesmo quebrados, uma sala que aparentava um salão de festas, a moldura da lareira – ainda com os tijolos na parede, me invadia um fluxo de memórias que me transportavam dali e me faziam ir além do que os olhos podiam ver, como se por alguns instantes eu conseguisse voltar o tempo e pudesse presenciar as pessoas que ali habitaram, assim como os momentos e acontecimentos de cada cômodo.
Esta foi uma das melhores experiências da minha introdução ao jornalismo. Desde então, descobri que o “fazer” jornalístico precisa ir além do normal, precisa despertar emoção, medo, curiosidade e, acima de tudo, vontade de saber e explorar mais.
É um tanto triste imaginar que de todo glamour que um dia esteve ali, hoje resta somente a história. Há tempos as autoridades deveriam ter tomado providências para proteger o território. O tempo passa e a casa continua abandonada, virou ponto de usuários de drogas, está exposta a ação do tempo, juntamente aos atos de vandalismo, e já tem grande parte de sua construção destruída.
O “Casarão do Anastácio”,como ficou conhecido, resgata as memórias do bairro de Pirituba, assim como as de São Paulo, pela época da industrialização e da economia cafeeira. O começo da história data de 1856. O terreno pertenceu ao Coronel Anastácio de Freitas, influente figura política na década de 20, mais tarde, ainda no mesmo ano, as terras foram vendidas e o casarão virou propriedade do Brigadeiro Tobias de Aguiar e sua esposa Marquesa de Santos, que se tornou a única proprietária após a morte de seu marido.

Crimes que ficaram na memória

Museu da Polícia Civil expõe desde a história da corporação até os objetos originais de crimes que abalaram São Paulo

Eram altas horas da madrugada quando empregada e patroa tiveram o sono interrompido pela presença de um estranho no quarto. Acácio acabava de invadir a residência, localizada em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. Com o auxílio de um macaco de automóvel arrombara as grades e agia com sua lanterna de luz propositalmente vermelha.
Mil cruzeiros novos. Essa era a recompensa para quem capturasse o temido bandido. Conhecido por acordar as pessoas da casa que assaltava e então roubar seus objetos de valor, o delinqüente tinha como marca sua lanterna. O “Bandido da Luz Vermelha“, João Acácio Pereira da Costa, nascido em 1942, era o terror da sociedade paulista da época. Foi condenado pela morte de quatro pessoas, sete tentativas de assassinato e setenta e sete roubos.
Embarque: Porto de Santos (SP). Destino: Bourdeux (França). Era esse o trajeto a ser percorrido pela misteriosa mala que atravessaria o Atlântico dia 07 de outubro de 1928, não fosse um pequeno incidente na hora de acomodar a bagagem. A trava da mala deslizou e ocasionou uma pequena abertura, o suficiente para que o mau-cheiro se espalhasse e a estranha secreção começasse a escorrer.  Assim o Crime da Mala acabava de ser descoberto. Giuseppe Pistone matara sua mulher, Maria Fea. Após esquartejá-la o assassino encaixou-a na mala que, por fim, foi aberta cerca de três dias depois do crime. A mala mais polêmica da década de 30, hoje pode ser vista detalhadamente no Museu da Polícia Civil.
Essa e outras histórias estão expostas no Museu da Polícia Civil, conhecido popularmente como Museu do Crime, que teve início como uma forma de deixar as aulas da academia de polícia mais didáticas. Em 1970 o museu foi transferido do bairro da Liberdade para a Cidade Universitária (atual sede). Foi formado pela reunião de objetos apreendidos nos inquéritos policiais que eram encontrados em locais de crime, suicídios ou mesmo em posse de criminosos.
Cláudia, 35, agente de trânsito da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) visitou o museu durante o intervalo de um curso que fazia na Cidade Universitária. Apesar de se deparar diariamente com acidentes de trânsito ficou impressionada ao ver a sala de “Medicina Legal”: “fiquei chocada ao ver os fetos (consequências de aborto)”.
O Caminho do Crime
O Museu do crime oferece aos visitantes uma sensação de proximidade com a cena dos delitos. No local de entrada há um Fusca de 1963, antiga viatura de polícia. Variados tipos de drogas ilustram, até mesmo para os visitantes de ensino fundamental, os perigos que envolvem o mundo das drogas ilícitas. Além das amostras dos tóxicos, o museu expõe objetos apreendidos que auxiliaram no transporte de maconha e cocaína como sapatos e caixas de doces. A sala de entrada abriga mãos e braços de bonecos que possuem tatuagens feitas na cadeia e a cada uma delas foi dado o significado tido no mundo do crime.
A sala intitulada de “Medicina Legal” oferece o primeiro impacto de imagens que impressionam o visitante. Nela encontram-se imagens cruas de necropsia de pessoas que foram esfaqueadas, por exemplo. Há prateleiras com objetos utilizados em abortos e fetos em variados estágios de desenvolvimento. Outra sala simula uma cela de prisão, que chega a abrigar mais de 30 pessoas. Com instalações precárias e sem higiene tem-se noção de como é o espaço físico do sistema penitenciário. A porta da cela é uma porta trazida das instalações do Carandiru.
O Museu do Crime conta com a exposição de representações dos criminosos mais famosos que aterrorizaram São Paulo como Francisco de Assis Pereira (Maníaco do Parque – 1998), João Acácio Pereira da Costa (O Bandido da Luz Vermelha – 1966), José Pistone (O Crime da Mala – 1928), entre outros.
Dois espaços são dedicados ao treinamento de policiais: é o caso da “Simulação de Local de Estupro” em que uma cena é montada para que o policial identifique os detalhes do crime. O espaço de “Simulação de Local de Crime” traz a representação de cômodos de uma casa com diversos indícios de ação criminosa.
Armas construídas por presos, história da Polícia Civil, configuração antiga de delegacias e informações sobre o Serviço Aerotático da Polícia Civil do estado de São Paulo são temas abordados pelo museu.

O certo pode ser errado

Quem definiu que nossa vida tem que ser assim?Quem decidiu que devemos fazer as coisas de um modo e não de outro?Quem definiu as convenções sociais? Em pleno século 21 ainda estamos presos às amarras de um sistema que paulatinamente tomou conta de nossa vida, nossos pensamentos e ações. Que regras são essas que nos influenciam de tal forma que levamos conosco todas as pré-definições e preconceitos. Gostamos tanto de dizer que somos modernos, livres, democráticos e, com isso, abominamos toda e qualquer movimentação que aparente ser ditatorial. Como nós, que tanto exigimos a liberdade, aceitamos viver sob o conjunto de crenças introduzidas na sociedade por pessoas como nós, simples mortais. Não temos então um paradoxo?
Como abominamos as formas ditatoriais e aceitamos viver sob uma convenção de regras e acordos sociais que sequer sabemos o motivo pelo qual seguimos. Quem tem este direito de nos garantir que a maneira como vemos e vivemos as coisas é válida? Toda forma de viver é válida, sem que precisemos de tutores. Quem são estes que pregam o bem estar social e as regras que devem ser aceitas? Por que viver sob o julgo daqueles que impõem valores e crenças e, propositalmente, se apropriam do termo opinião pública como forma de validar o discurso de um determinado grupo da sociedade?
Milan Kundera, em “A insustentável leveza do ser” introduziu o conceito de Nietzsche, trazendo a teoria de que não existia superioridade dos homens em relação aos animais, no entanto, o homem cria a vontade de Deus para aceitar  e justificar as ações humanas. Deus criou o homem para viver da maneira que vivemos hoje, ou o homem criou a figura de Deus -um ser supremo que rege nossas vidas- como forma de justificar as imposições e convenções sociais?
Em sua obra “A insustentável leveza do ser”, o autor revelou personagens nada convencionais, que, de tão excêntricos, deveriam ter ido além das páginas de um livro. Tomas, um dos personagens, coloca em cheque os valores tradicionais da sociedade como o amor e o sexo. Tomas afirmava que entre o amor e o sexo há diferenças e longas distâncias. Tomas amava a esposa,Teresa, mas via em cada uma das mulheres uma singularidade que não era possível apenas imaginar, e essa distância entre o imaginário e o real deixa um espaço. Essas eram as lacunas que Tomas queria preencher e descobrir. Para ele, não havia traição, já que com Teresa havia o sentimento real dele para ela, já com as outras o sentimento era uma espécie de aventura.
Não seria necessário seguir este modelo, mas, por que não pensar em como seria se pudéssemos levar a vida como Tomas, construindo nossos próprios valores e modos de viver? E por qual motivo não podemos?Por que o fato de apenas pensarmos nestas possibilidades nos incomoda tanto?Por que estranhamos aquilo que soa diferente daquilo que segue o padrão da construída e produzida opinião pública?
Existem personagens na vida real tão excêntricos quanto Tomas. César Castro é músico e escritor, mas, acima de tudo, um ser indefinível – como prefere ser visto. Sinto-me no direito de causar impacto no ser convencional – que por ventura atentar-se para esta leitura- com a observação de um ser real, mas não convencional: “O conceito de traição e fidelidade conjugal é certamente uma gaiolinha muito pequena, bem como o próprio conceito de gêneros e até mesmo a própria identidade. Eu escolho ser para mim mesmo todas as mulheres que me fascinam, e a minha mulher certamente poderia estar me traindo com todos os personagens das minhas histórias que transbordam para minha personalidade. Mas o conceito de pluralidade me encanta. Ele está próximo da lógica da natureza. E a aventura também, dependendo de que tipo de animal você é ou quer ser.” (César Castro Rosa)

Profissão Bandida: Mais de 27 mil mulheres presas

Mais de 27 mil mulheres estão atrás das grades no Brasil, e a cada ano a população carcerária feminina cresce 11%, enquanto o número de homens presos aumenta 4%. Os dados são do Ministério da Justiça e não ficam muito distantes da realidade fluminense. No Estado do Rio de Janeiro, segundo levantamento da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), há 1.142 presas. Cada detenta custa ao Estado aproximadamente R$ 1 mil.
Eonde fica pior a maioria das mulheres presa por traficos de drogas ,começa por amor e termina na dor,sem dinheiro e ainda abandonada pelos companheiros e parceiros .
O juiz de Nísia Floresta, Marcus Vinícius Pereira Júnior revela que na Penitenciária Estadual de Alcaçuz (em Nísia Floresta) é comum mulheres sendo detidas com droga nos órgãos genitais. A situação é tão grave que de dez mulheres presas, sete entram com a droga na vagina e três no ânus. (A dilatação do órgão propicia a colocação do entorpecente no ânus).

Arriscando passar por um grande constrangimento e ficar anos atrás das grades, elas continuam tentando. “Toda semana uma mulher é presa nestas circunstâncias”, explica Marcus Vinícius.

Embora pareça absurdo e pouco inteligente, as mulheres driblam a própria sorte e colocam em risco a liberdade para agradar o companheiro preso. “Por amor”, passam pela revista. Sem roupa, ficam em uma posição onde por meio de um espelho as agentes femininas conseguem visualizar o material introduzido. Quando são questionadas, em regra, a maioria afirma que está com o entorpecente dentro dos órgãos genitais. “Quase sempre elas mesmo retiram a droga da vagina ou do ânus. Algumas insistem em negar, nestes casos, o material é retirado no hospital”.

Em dia de visita, pelo menos 200 mulheres entram na unidade. É impossível revistar todas. São apenas três agentes penitenciárias para a demanda. Um efetivo maior, segundo o magistrado, poderia contribuir para a diminuição de mulheres com drogas na unidade prisional.

O que muita gente não sabe, mas  que é uma realidade, é que independente da classe social, as mulheres tentam entrar com o entorpecente em Alcaçuz. A população carcerária, quase na  totalidade, são de presos de baixa renda, mas mulheres de classes mais altas também ousam entrar com entorpecente. “Há poucos dias, uma visitante do bairro de Candelária (zona Sul de Natal) foi detida em Alcaçuz”.

Marcus Vinícius lembra que, geralmente, as presas são jovens, tem entre 18 e 30 anos. Junto com a prisão vem a surpresa. O amor acaba, não por parte delas, mas por parte deles. O verdadeiro responsável pela mulher estar atrás das grades é o próprio companheiro.

Marcus conta que são inúmeros os casos em que a mulher passa anos visitando o marido ou o namorado, quando ela é detida  tentando entrar na penitenciária com droga para entregar para o companheiro, a história é bem diferente. “O homem após cumprir a pena sequer vai visitar a companheira. Desistem delas”. E as juras de amor eterno? Acabam rapidamente.

Caso recente foi de uma mulher que durante sete anos consecutivos visitou o marido, presidiário de Alcaçuz, faltando um mês para ele receber a progressão de regime, ela (grávida) foi presa com droga na vagina tentando entrar na penitenciária. Foi direto para a prisão. “Ele só visitou a mulher uma vez na Delegacia de Nísia Floresta. Nunca mais apareceu”, diz Marcus Vinicius.

A realidade nua e crua não é suficiente para que as mulheres deixem de se arriscar para levar droga para os “amores”.

Há presos que possuem dívida dentro da penitenciária e a única alternativa para o pagamento é a própria companheira que fazer a ponte entre o mundo exterior e a unidade. São elas que fazem o transporte do entorpecente.

Com a prisão, respondem na justiça por tráfico de drogas. Em tese pode até ser aceito um pedido de liberdade provisória, mas Marcus Vinícius não aceita. “Eu considero que a mulher desafia, o diretor da unidade, o Ministério Público e a justiça, por isso, ficam presas mesmo”.      
Troca de cartas amorosas ajuda presas a resgatar a sexualidade e se protegerem do HIV
O "castelar" - fenômeno em que mulheres presas constroem, por meio de cartas, histórias imaginárias de amor com direito até de se encontrar com o príncipe encantado num castelo - foi apresentado em Lisboa pela brasileira Márcia de Lima como possibilidade resgatar a sexualidade das reclusas e prevenir o HIV.


Numa manhã fria e chuvosa dentro da Penitenciária Feminina da Capital - São Paulo, Roberta (nome fictício) nem se lembra dos longos anos que ainda terá que ficar presa. Ela está ansiosa para receber uma carta de amor que vem de outro presídio do Estado.

Há alguns meses, Roberta começou a "castelar" com um homem que nunca viu pessoalmente, mas que já sonha em casar, com direito a uma grande festa na praia, muita comida, bebida e, claro, vestida de branco e perfumada com aromas de rosas vermelhas.

Além de distrair milhares de presas como Roberta, o castelar, que vem da ideia de criar um castelo, resgatou a sexualidade e contribuiu para a discussão da prevenção do HIV e de outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) entre as reclusas, explicou a técnica em saúde Márcia de Lima.

Representando a unidade Santana do Serviço de Assistência Especializada em DST/Aids da Prefeitura de São Paulo, Lima ganhou destaque entre as apresentações do III Congresso da Comunidade de Países de Lingua Portuguesa sobre HIV/Aids, que terminou na semana passada em Lisboa, Portugal.

"Quando falamos no castelar, os olhos das presas brilham. Elas consideram uma viagem com a caneta. Pela troca de cartas elas conseguem imaginar até o tipo de sexo que desejam", disse a palestrante.

Inspiração para a pesquisa do seu mestrado em 2004 e do seu atual doutorado, Lima contou que a descoberta do castelar surgiu pela percepção da baixa adesão das presas ao serviço de visita íntima.

Segundo a técnica em saúde, apesar de ser uma grande conquista para as internas, a visita íntima liberada para elas em 2001 é muito mais desconfortável em comparação as que os homens recebem, já que as presas só têm direito a essa regalia uma vez por mês num período máximo de duas horas e com a obrigatoriedade de ser com o já determinado parceiro fixo.

"Percebemos que dessa maneira tão regrada elas não gostavam, além do que o fato de estarem presas e de certa forma serem as mais interessadas pela visita, o poder delas em exigir o preservativo diminuía muito", disse Lima.

Entretanto, no castelar não há espaço para brigas nem para o medo da infecção do HIV, explicou a palestrante. "É um arranjo que elas encontraram para viver um amor de verdade e protegido".

Assim como Roberta, a maioria das presas que castelam acredita que quando saírem das prisões terão seus amores esperando nas portas dos presídios para colocarem em prática a construção do castelo que sonharam durante muito tempo.

Aids nos presídios femininos

Em 2006, uma grande campanha pelo fim da violência contra as mulheres divulgou alguns dados sobre as mulheres encarceradas.

Segundo essa campanha, a população prisional feminina do Estado de São Paulo era composta por mulheres jovens (77% tinham menos de 35 anos), 53% delas afro-descendentes, com baixo grau de escolaridade (84% não ultrapassaram o ensino fundamental/1º grau), com internações anteriores em instituições como a FEBEM (54%), histórico de violência conjugal (51%) e maternidade precoce (78% delas foram mães antes dos 21 anos).

A incidência de HIV/aids nos presídios femininos do Estado de São Paulo estava em torno de 18%, contra 11% entre dos homens.





Todas estão cumprindo suas penas no Complexo de Gericinó, em Bangu, na Zona Oeste: são 330 na Penitenciária Talavera Bruce, 492 no Presídio Nelson Hungria, 300 na Penitenciária Joaquim Ferreira de Souza e 20 atualmente estão na Unidade Materno Infantil Madre Tereza de Calcutá. A maioria delas está sem vagas ou próxima da lotação esgotada. Enquanto a Nelson Hungria possui capacidade para 432 presas e atualmente está com 492, na Talavera Bruce restam apenas 8 das 338 vagas.
Patrícia Fernandes Pereira Campos de Oliveira, a Morena do Pó ou Pati, 42 anos
O delegado Marcus Vinícius de Almeida Braga, titular da Delegacia de Combate às Drogas (DCOD), acredita que a maioria das mulheres acaba se envolvendo com o crime para auxiliar irmãos, namorados e maridos. Uma delas, apontada pela Polícia como maior fornecedora de armas e drogas da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP), principalmente dos traficantes Márcio José Sabino Pereira, o Matemático, 34 anos, e Nei da Conceição Cruz, o Facão, 37, foi presa em agosto do ano passado.
Irmã de Marcello Fernandes Campos Oliveira, o Magaiver, 39, – que cumpre pena por seqüestro e assalto na Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino (antiga Bangu 1), também no Complexo de Gericinó – ela vendia armas e drogas para traficantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV). Antes de ser presa, ela fornecia armamento e drogas principalmente para os morros Chapéu Mangueira, no Leme, e Dona Marta, em Botafogo, ambos na Zona Sul do Rio e controlados pelo CV.
Após sua prisão, ela se apaixonou por Márcio Dinnali Fontes, o Morte, 37, criminoso de uma facção rival. De acordo com a Polícia, ele era o executor do TCP dentro da Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira, também no Complexo de Gericinó.
“Ele é mais conhecido e respeitado dentro da cadeia, onde esquartejava desafetos por ordem de sua facção”, explicou um dos policiais que participou da prisão de Patrícia Fernandes Pereira Campos de Oliveira, a Morena do Pó ou Pati, 42, revelando que ela receberia uma carga de 100 quilos de cocaína e venderia cada quilo por R$ 17 mil.
“Ela já estava fazendo contatos para que, quando a droga chegasse, já estivesse tudo vendido”, disse o policial, contanto que, além de Facão e Matemático, outros seis traficantes já teriam encomendado parte da cocaína: Celso Luís Rodrigues, o Celsinho Russo, 46, da Favela Vila Vintém, em Padre Miguel; Fernando Gomes da Silva, o Fernandinho Português, 39, da Favela do Fumacê, em Realengo, ambas na Zona Oeste; Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nêm, da Favela da Rocinha, na Zona Sul; e Jorge Porfírio de Souza, o Dinho, 30, do Morro da Serrinha, em Madureira; além de seus irmãos, Neco e Adilson, do Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho, ambas na Zona Norte.
Apontada como líder de uma quadrilha de tráfico internacional de material entorpecente e armamento que atuava no eixo Rio-São Paulo-Minas Gerais e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, a matuta – que nasceu em Juiz de Fora – foi presa por agentes da Coordenadoria de Informação e Inteligência Policiais (Cinpol), no final da tarde do dia 12 de agosto do ano passado, no encontro da Rua André Rocha com a Estrada dos Bandeirantes, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio.

Investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal demonstraram que ela abastecia as bocas-de-fumo de favelas do Rio de Janeiro, sendo a principal responsável pela importação das drogas, das armas e das munições provenientes da Bolívia e do Paraguai. Presa pela PF em 1994, ela foi condenada a 35 anos e seis meses de prisão por tráfico de drogas, associação para fins de tráfico e contrabando de armas e munições e estava evadida da Penitenciária Joaquim Ferreira de Souza, antiga Bangu VIII, no Complexo de Gericinó, em Bangu, desde dezembro de 2008.

Quatro meses após a prisão da Morena do Pó, outra mulher apontada como matuta foi presa. Desta vez, no bairro Ilha da Conceição, em Niterói. Mulher do traficante Carlos Vinícius Lírio da Silva, o Cabeça, e conhecida como Dama do Pó, Rafaela dos Santos Rocha, 27, é apontada pela Polícia como responsável por controlar os negócios do marido na Favela do Sabão, no bairro São Lourenço, também em Niterói.
Ela foi presa por policiais da 36ª DP (Santa Cruz), no dia 14 de dezembro. No dia seguinte, os agentes apreenderam dois aparelhos de telefone celular na cela em que Cabeça cumpre pena, há quatro anos, na Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho (antiga Bangu 4), no Complexo de Gericinó. Ele foi preso, em 2005, depois de participar da tentativa de resgate dos traficantes Edmilson Ferreira dos Santos, o Sassá, 34, e Marcélio de Souza Andrade, 29, no dia 27 de dezembro daquele ano.
Os dois e outros cinco detentos seguiam para o Fórum da Ilha do Governador para depor, acompanhados por apenas dois policiais civis, quando aconteceu o resgate. Na ação, os policiais Luiz Hermes Ferraz Dantas, 43, e Fernando Guilherme Medeiros Queiroz, 53, acabaram metralhados e suas armas – duas pistolas .40 e um fuzil – foram roubados.
Natural da Favela da Linha da Leopoldina, no Barreto, Marcélio era braço-direito de Sassá, considerado um dos maiores atacadistas de drogas do Estado e integrante da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA). Ele também chefiava o tráfico na Favela do Sabão, no Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho, e na Favela Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, em Bonsucesso, ambos na Zona Norte do Rio. Ele foi encontrado morto, uma hora após a fuga, vestindo um colete da Polícia Civil. O corpo estava em mata fechada ao lado do campo de treinamento da Força Aérea Brasileira (FAB), na Ilha do Governador.
Desde então, mesmo preso, Cabeça assumiu o controle do tráfico no Sabão e na Favela do Aço, em Santa Cruz. Ele controlava as bocas-de-fumo e dava as coordenadas para a mulher, responsável pela arrecadação do dinheiro da venda das drogas, por buscar correspondências no presídio, e até pela distribuição do entorpecente nas duas comunidades.
Rafaela dos Santos Rocha, a Dama do Pó, 27 anos
Ela teve a prisão decretada pela 2ª Vara Criminal de Santa Cruz com base em escutas telefônicas feitas nos dois celulares que estavam com o marido na cela de Bangu 4, onde ele cumpre pena de 50 anos de em regime fechado pela execução dos policiais. A prisão de sua mulher ocorreu oito meses após a volta dela ao Brasil. Em uma tentativa de afastar a filha do traficante, os pais de Rafaela chegaram a mandá-la para os Estados Unidos, onde ela morou durante dois anos, na cidade da Pensilvânia. Ela havia acabado de comprar uma casa no bairro Venda da Cruz, em São Gonçalo. Segundo a Polícia, para lavar o dinheiro do tráfico.
Em junho de 2008, 72 mulheres ingressaram no sistema carcerário do Estado do Rio de Janeiro, já julgadas e condenadas por tráfico de drogas. De janeiro a junho do ano passado, foram 122. Apenas uma delas, a Morena do Pó, apenada por tráfico internacional de drogas.

Projeto Mulheres Visíveis

Homicídios de mulheres fazem parte da realidade e do imaginário brasileiro há séculos, como mostra variada literatura de caráter jurídico, histórico, sociológico, revistas, notícias de jornal, além da dramaturgia, literatura de cordel, novelas de rádio e televisão, música popular, e pesquisas científicas".
Eva Alterman Blay.
1- INFORMAÇÕES GERAIS
O projeto Mulheres Visíveis "é um projeto de informação, no formato de palestra, e de informação e formação, no formato de mini-curso" 1, onde são abordados temas como dignidade para a mulher, direitos fundamentais dos seres humanos, alguns artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Lei Maria da Penha de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher, como denunciar a violência doméstica, alternativas de apoio a mulher, entre outros tópicos. O objetivo é possibilitar uma compreensão sobre o tema e incentivar a denúncia e a valorização da mulher.
"[...] Convencidos de que as mulheres, em número bem maior do que os registrados pelos órgãos competentes, sofrem dentro de seus lares todo o tipo de violência, do mais oculto que é a violência psicológica ao mais brutal que é a violência sexual, desejamos informar as mulheres jovens e adultas sobre as formas como este tipo de violência pode surgir, os direitos humanos que são violados e suas possibilidades de defesa, utilizando-se as leis que nosso país nos proporciona. [...]".2
Contato pelo e-mail: contato@novaeduc.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ou pelo telefone (11) 2936-0716.

2- CONHECENDO A PROPOSTA
O projeto Mulheres Visíveis tem sua origem na experiência pessoal de uma mulher que sofreu violência doméstica que, partindo de uma apostila sobre abuso sexual de outra mulher, tomou a iniciativa de montar uma palestra visando a conscientização de vítimas de violência doméstica, principalmente em comunidades que não têm acesso à informação.
Os recursos materiais vêm da própria Cristina Mekitarian - a criadora do projeto -, que atualmente está tentando vendê-lo para que ele seja do governo e recentemente também conseguiu o apoio da OAB feminina, que pretende desenvolver um adesivo com a marca registrada do Mulheres Visíveis para arrecadar fundos.
A própria Cristina organiza as palestras, as realiza, financia e é a idealizadora do projeto, sendo assim, sua maior dificuldade são os recursos financeiros. Os cursos são realizados em comunidades onde são requisitados e já obtiveram bons resultados.
Considerando-se que o projeto vem adquirindo um caráter educacional, alfabetizando as mulheres que vão aos cursos - as palestras geralmente são freqüentadas por mulheres com um nível de escolaridade maior -, já foram obtidos excelentes resultados, como casos de 10 semanas de curso que, ao final, as participantes queriam dar continuidade ao processo, porém por falta de verba e espaço físico não foi possível. Além disso, pensando pelo lado da conscientização e da importância da denúncia da violência doméstica, já houve casos de mulheres que tomaram a iniciativa de denunciar seus agressores.

3- DISCUSSÃO
A violência continua tão presente nas relações entre as pessoas cotidianamente, que não é raro encontrarmos pessoas que se quer percebam isso. A violência infelizmente já faz parte da nossa cultura, está intrínseca na sociedade. Isso significa que estamos acomodados?
Todos já estão acostumados a temer e preocupar-se consigo mesmo em todo e qualquer lugar que ande pela cidade e em algumas situações, até mesmo dentro de sua própria casa, partindo do pressuposto de que não há o que fazer.
Com relação às mulheres a violência ganha destaque: "Homicídios de mulheres fazem parte da realidade e do imaginário brasileiro há séculos, como mostra variada literatura de caráter jurídico, histórico, sociológico, revistas, notícias de jornal, além da dramaturgia, literatura de cordel, novelas de rádio e televisão, música popular, e pesquisas científicas". Ou seja, as mulheres enfrentam a "violência simbólica da mídia, dos livros escolares, da linguagem, a violência médica, sexual, psicológica, de assedio moral no trabalho, etc. Enfim, a violência nas relações familiares"3.
Blay, em 2005 numa pesquisa sobre direitos humanos e homicídios de mulheres constata que a violência se processa principalmente entre "o marido ou companheiro, o namorado, o noivo, o colega de escola enciumado sem nenhum vínculo, e todas estas categorias na condição de ex: ex-marido ou companheiro, ex-namorado, ex- noivo, ex- colega que se sentiu rejeitado, todos eles infringem uma violência fatal sobre meninas, adolescentes, mulheres de todas as faixas etárias em todos os locais além da casa e especialmente o local de trabalho, de lazer, a rua, etc.".4
A utopia está relacionada com aquilo que consideramos impossível, que está no nosso imaginário. Temos como ideal uma sociedade sem violência, onde se pudessem estabelecer meios de comunicação e troca entre as pessoas sem que fossem utilizados recursos agressivos. A nossa utopia, portanto, é de uma sociedade menos violenta e agressiva, onde todos possam conhecer seus direitos e se sentirem seguros de "levantar a voz" e reivindicá-los para sua própria segurança e bem estar.
Acreditamos que um dos primeiros passos para uma sociedade menos violenta é a conscientização da população de que o conhecimento de seus direitos e a reivindicação são válidas e necessárias. Em uma sociedade democrática se institui os direitos. Vale ressaltar que o direito é geral e universal, ou seja, é válido para todas as pessoas, grupos e classes sociais. Caso os direitos não existam, ou não estejam garantidos, cabe a pessoas, enquanto sujeitos de direitos, lutar por eles e exigi-los.
Outro ponto principal de nossa utopia é que os Direitos Humanos sejam válidos para todos. Porque efetivamente eles não são considerados para todos? Porque algumas pessoas se dão ao direito de ignorar os direitos de outras e porque ainda existem pessoas que não reivindicam seus direitos? Não seria justo numa sociedade democrática que todos tivessem pleno conhecimento de seus direitos básicos e que os mesmos não fossem completamente ignorados por indivíduos que se sentem no direito de fazê-los? O direito de um vai até onde começa a liberdade do outro, assim como o direito de um não deve se sobrepor ao direito do outro, pois os direitos são iguais para todos.
Ao longo do curso de biologia, discutimos se a evolução tem direção, mas, como proposto, agora é a hora de debater sobre a direção que queremos dar à evolução. Será que queremos um mundo de seres humanos que estão perdendo sua humanidade? Para o bom convívio em sociedade, é preciso haver uma troca entre as pessoas, não apenas relações hierárquicas e agressivas.
Ainda durante o Ensino Médio, na disciplina de filosofia entramos em contato com a autora Chauí que afirma que, na nossa cultura a violência é entendida como uso da força física e do constrangimento moral e psíquico para obrigar a pessoa a atuar de maneira contrária a seu ser. Isso significa, tratar o outro como objeto e não como sujeito. Podemos entender que o humanismo está ameaçado?
Temos um categórico não, muitas pessoas estão preocupadas com os rumos da sociedade. Consideramos que o projeto Mulheres Visíveis tem essa mesma utopia, caminhando em direção à conscientização e a um mundo mais justo, combatendo a violência doméstica contra a mulher.
A tentativa de conscientização da mulher através de palestras e cursos é uma boa iniciativa para começar um caminho rumo a outro tipo de desenvolvimento da sociedade, porém apenas a conscientização das mulheres não é suficiente. É necessária uma conscientização geral de toda a sociedade, uma mudança no modo como as pessoas se relacionam com o meio e com os outros. O projeto têm alcançado seus objetivos, mas será que a violência doméstica diminui apenas com as mulheres estando conscientes? Apenas com suas denúncias? Como o projeto está tomando dimensões cada vez maiores, é provável que ele realmente seja meio para mudanças significativas.
Com o projeto Mulheres Visíveis, aprendemos que a iniciativa de um faz a diferença de muitos. E aqui não estamos querendo citar frases de efeito para concluir com a idéia de que o mundo ideal existe ou está logo aí, mas acreditamos que, como no caso da Cristina que a partir de sua experiência pessoal desenvolveu um projeto a fim de conscientizar outras pessoas e que este projeto tem dado resultados, é possível que ao tomarmos uma atitude ela tenha grandes efeitos.

4- REFERÊNCIAS
http://www.nevusp.org/portugues/index.php?option=com_content&task=view&id=604&Itemid=29
http://www.usp.br/nemge/textos_violencia/violencia_genero_blay.pdf
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000300006
http://www.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm
Cristina Mekitarian, idealizadora do projeto Mulheres Visíveis.

NOTAS:
1 Texto extraído do site do projeto: http://www.novaeduc.com.br/.

Pastoral Carcerária

Nome da prática escolhida e descrição do trabalho realizado;
A Pastoral Carcerária é um serviço vinculado à Igreja Católica em prol dos indivíduos privados de liberdade e zela para que os direitos humanos e dignidade humana sejam garantidos no sistema prisional.
Entre outras coisas, os objetivos do trabalho são: conscientizar a população a respeito da difícil situação do sistema prisional com palestras nas comunidades, promover a dignidade humana, durante as visitas às unidades prisionais, promover políticas públicas: criação de conselhos das comunidades, Defensoria Pública, ouvidorias de polícia e do sistema prisional independentes, e re-integração do egresso. No âmbito internacional: ganhar força e reconhecimento, conhecer experiências positivas e denunciar toda a injustiça praticada no sistema carcerário.
A atuação conta com:
- Visitas semanais de escuta, celebração, evangelização à pessoa encarcerada na sua totalidade, respeitando as diferentes religiões presentes no cárcere.
- Fazer controle social das unidades. Visita a todas as suas dependências: celas em geral, inclusão, celas de castigo, seguro, enfermaria etc.
- Articulação/contato com autoridades em nível Federal e Estadual e outras entidades para construção de um sistema penal digno, de acordo com as regras mínimas estabelecidas pela ONU.
- Orientação aos egressos quanto a documentos pessoais, estudo, trabalho etc. Re-integração à vida comunitária e social.
- Diálogo com a sociedade a fim de promover uma consciência coletiva comprometida com a vida e a dignidade da pessoa humana. Participação em debates e de matérias na imprensa.
- Elaboração de documentos para reflexão da questão carcerária
- Formação e acompanhamento de agentes de pastoral.
- Apoio jurídico e social às famílias de presos.
- Acompanhamento de denúncias de violação de direitos humanos.
- Diálogo com órgãos públicos e outras entidades para que o judiciário seja mais ágil.
- Apoio aos funcionários de sistema prisional e discussão para respeito e melhoria do trabalho deles.
- Contato com diretores das unidades.

3-) Local, duração, pessoas responsáveis e contato;
A pastoral tem início nos anos 50 e possui sedes em vários estados brasileiros. Há um coordenador nacional, o padre Stringhini. Cada estado possui um coordenador e é dividido em dioceses (circunscrição territorial sujeita à administração de um elemento religioso).
Contato: Pastoral Carcerária Nacional - CNBB
Praça Clovis Bevilácqua, 351, conj.501 - Centro - 01018-001 - São Paulo - SP
Tel/fax               (11) 3101-9419        - pcr.n@uol.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. - www.carceraria.org.br

4-) Em relação ao grupo: qual é a utopia de vocês?
Antes de tudo, uma distribuição mais justa dos progressos da humanidade. Um mundo onde as pessoas possam viver com dignidade, sem que haja descriminação, marginalização ou exclusão de indivíduos. Tenham acesso a um sistema decente de saúde, educação, transporte, segurança entre outros muitos. Uma Utopia calcada basicamente nos direitos "garantidos" pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, onde haja espaço para o amor, felicidade e até mesmo para o sofrimento necessário para o crescimento e amadurecimento de cada ser.
É necessário que exista um equilíbrio entre a lógica do interesse privado (representado pela economia liberal) e a lógica da solidariedade coletiva (representada pelo Estado, pela política e também pela ação sindical).É importante que existe, acima de tudo, cooperação entre as partes.
Nesse mundo, a democracia existiria efetivamente. O debate político realmente aconteceria, ao passo que a maioria dos eleitores teria informação e capacidade de análise (resultantes de uma capacitante e efetiva educação). Os responsáveis políticos que hoje estão submetidos à tirania do mercado político, teriam como fim o real objetivo da política: viabilizar o mundo que a população quer, e não mais simples vitórias eleitorais. A informação leva à transparência e a transparência à manutenção de uma democracia deturpada, que incentiva a mentira, desonestidade e perversão ideológica.
Nessa sociedade, a lógica do lucro não se aplicaria mais à política e nem às relações humanas. Todos saberiam que pessoas são pessoas. A nova lógica seria a da solidariedade coletiva, do micro ao macro, porque entenderíamos que o egoísmo, ganância e ignorância nos levaram ao crescente desemprego, miséria e à crise que vivemos hoje. Crise política, econômica, ideológica, ambiental. No fim todos saem perdendo.
O espaço público seria mais valorizado. Não seria mais considerado de ninguém, passaria a ser efetivamente de todos.
O desenvolvimento tecnológico passaria a servir exclusivamente a nosso favor. Não adianta termos as máquinas mais avançadas no setor agrícola se sabemos que milhões de pessoas dormirão sem comer essa noite. Ou que corremos o risco de ter câncer de pele porque esse mesmo desenvolvimento deteriorou a camada de ozônio.
Não se espera ingenuamente que todos comam alimentos orgânicos e nem que todos os países resolvam se fechar e acabem com a globalização. Não há como voltar ao tempo e não há sentido em posicionar o desenvolvimento tecnológico, as leis do mercado ou os capitalistas como os vilões responsáveis pelo mundo em que vivemos hoje.
Nesse sentido, nossa utopia consiste em as pessoas, conscientes da necessidade das políticas de solidariedade, escolherem conscientemente esse mundo que imaginamos.
Em longo prazo, nível por nível, tudo iria melhorar. A questão da fome, do desemprego, do meio ambiente. Aprenderíamos a abrir mão em nome do mundo que queremos viver, não esperaríamos mais sutis mudanças nas estatísticas, mas profundas mudanças que tornariam-se mais visíveis ano após ano.
A música, a cultura, a arte ocupariam o verdadeiro espaço que lhes cabe na humanidade. A educação teria o valor que merece. Seriam fins em si mesmo.
Um mundo construído por pessoas para que simplesmente pessoas possam usufruir do mesmo, sem que para isso outras tenham que sofrer ou viver de maneira prejudicada.


5-) Por que a prática escolhida foi considerada como uma maneira de nos aproximarmos dessa utopia?
A prática se constitui pela ação de profissionais que atuam como verdadeiros agentes sociais em prol dos direitos humanos muitas vezes esquecidos pela sociedade e pelo Estado.
O trabalho é sustentado pela clareza de objetivos e o senso de solidariedade e entendimento de noções simples como a de "saber abrir mão", frente a um objetivo de melhora para a sociedade. É justamente a falta de tais elementos que resultaram na tirania do mercado político e na deturpação da democracia. E por conseqüência, em problemas na educação, fome, miséria meio-ambiente.

6-) Como esta prática se iniciou?
A partir de uma passagem da Bíblia, no evangelho de São Mateus, que diz: "pois estive preso e viestes me visitar". Assim, uma iniciativa católica de simplesmente conversar com os presos foi se espalhando e ganhando mais causas.

7-) Breve histórico;
A necessidade de proporcionar dignidade aos indivíduos presos e possibilitar-lhes uma conexão com a sociedade e também reinserção social casou-se com a necessidade de solucionar problemas jurídicos.
Os voluntários que participam sempre se identificaram com as causas e lutaram por ela. Assim, a pastoral foi crescendo pelo país, em diferentes estados.
Com persistência e reconhecimento conquistou o apoio de órgãos estaduais e privados e mudança parte da realidade em que atua.

8-) Fonte de recursos materiais e humanos;
A pastoral carcerária conta com cerca de três mil voluntários em todo o país. Entre eles: advogados, psicólogos, assistentes sociais, padres. Não há necessariamente uma estrutura fixa para cada diocese no que diz respeito à organização de tais voluntários capacitados.
Conta também com parcerias e articulações de órgãos governamentais e não-governamentais. Os principais são: Ministério da Justiça/Depen (Departamento Penitenciário Nacional), Pastorais Sociais, Secretarias de Justiça e de Administração Penitenciária Estaduais, HRW - Human Rights Watch, Anistia Internacional, Conselho Britânico, Consulado da Espanha, Cejil, APT, Conselhos Estaduais, ITTC (Instituto Terra Trabalho e Cidadania), Juízes pela Democracia, Defensorias Públicas e Comissão Teotônio Vilela.
O capital provém de igrejas, doações de pessoas físicas e de entidades sociais internacionais. Os advogados, por exemplo, são pagos com esse dinheiro, já que a maioria dos presos não possui nem verba e muitas vezes nem família.

9-) Resultados obtidos até agora:
Possibilidade de fazer com que a voz dos presos seja ouvida, aproximação e reintegração dos sujeitos na sociedade, efetivação da conclusão justa da pena, melhorias no cárcere, na alimentação, criação e execução de políticas públicas favoráveis, cumprimento do número certo de pessoas por presídio/cela, entre outros, durante as décadas de existência da pastoral.

10-) Dificuldades encontradas até agora (segundo as pessoas entrevistadas);
Falta de verba e capital humano para possibilitar uma maior estrutura.
Dificuldade em transpor o poder do Estado. Juízes e promotores muitas vezes estão com a única preocupação de que o individuo cumpra uma pena extensa, sem se preocupar com a reinserção social dele, que muitas vezes, por não ser trabalhada, resulta em um novo envolvimento com o crime assim que a pessoa é libertada, por exemplo.
O Estado é muito rigoroso, mas, paradoxalmente, não tem condições de manter.

11-) Análise a discussão dos aspectos "positivos" e "negativos" dessa prática;
Em relação aos aspectos "negativos" dessa prática, vale à pena atentar ao fato de que instituições dedicadas a prestar qualquer serviço à população não adquiram um caráter paternalista. Na realidade, em nenhum momento pudemos perceber a realização de tal tipo de política na Pastoral Carcerária.
Os aspectos positivos honestamente transcendem, a começar pela proposta estabelecida pela instituição. A mobilização e sentimento de esperança das pessoas envolvidas nesse trabalho é de um comprometimento e honestidade ímpares.
Vale a pena ressaltar que grande parte dos aspectos negativos que possam estar envolvidos nessa prática são originados pela  notável falta de capital para suprir todas as necessidades que a instituição necessita para se manter. Os aspectos positivos coexistem nesse  caso com toda a proposta da Pastoral Carcerária e suas  conseqüentes ações.

12-) Que conceitos, conhecimentos e valores do ensino médio (estudados em biologia ou em outra matéria) foram importantes para  a realização deste trabalho? Discuta também a influência da sua formação nas escolhas e análise feitas neste último trabalho.
É difícil analisar tudo o que pensamos e escrevemos e identificar quais valores adquirimos e onde os adquirimos. Conceitos são até mais fáceis de "classificar".
Sem dúvida, sabemos que a influência de conceitos, valores e conhecimentos possibilitada pelo Equipe é um fato. Não só nesse trabalho.
E é aí que percebemos que algo valeu à pena. São coisas que realmente foram incorporadas, que nos possibilitam, por exemplo, analisarmos o trabalho que escolhemos; pensarmos não só nos problemas, mas nas melhores soluções. Do contrário, o conhecimento perde a utilidade, o sentido, e já não existe valor.
Algo importante é evitar-se a tentação de uma visão maniqueísta, que muitas vezes reflete ingenuidade e falta de ação efetiva. Ribeirão e Cubatão cuidaram bastante disso.
Talvez o mais significativo é, ao imaginarmos nossas utopias, nos posicionarmos dentro dela de modo a compreendermos nossa responsabilidade e buscarmos nossas funções. E essa busca de funções, engloba nossas escolhas profissionais, nossas metas e o que faremos ao final desse ano.   Funções que não são nada mais do que a construção do sentido que queremos dar a nossa vida.

13-) Um outro mundo é possível?
Nossa utopia, baseada em uma reforma política com origem na população, é considerada por nós como algo possível. Segundo o Artigo Primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos, "quando os seres humanos nascem, são livres e iguais, e assim devem ser tratados". Mesmo interpretada em seu sentido mais literal, essa frase tem a grandeza que a Utopia de nosso trabalho almeja.
A Pastoral Carcerária, apesar de ser uma instituição de natureza essencialmente religiosa, agrega voluntários e trabalhadores interessados em lutar pelo resgate e direitos dos presidiários, acima de tudo, independentemente tanto da crença do agente social quanto do preso.
Vale à pena ressaltar que a remuneração recebida por todos esses agentes sociais ligados à Pastoral Carcerária (advogados, psicólogos, membros da Igreja Católica etc.) devido ao trabalho que realizam (que ocupa dedicação quase integral desses profissionais) provém de doações voluntárias, o que reforça mais ainda o caráter empreendedor e realizador do projeto. Esses agentes sociais, não fazem parte de uma massa passiva ou daqueles que são ótimos em apenas criticar todo e qualquer político (o que não deixa de ser uma posição passiva). Eles agem política e ideologicamente em prol dos direitos humanos. Empurram o Estado à uma ação.
Muitos desses profissionais que trabalham na Pastoral Carcerária têm verdadeiras oportunidades de ascender em suas respectivas profissões em grandes empresas ou projetos onde a remuneração é mais generosas, devido a suas inquestionáveis competências profissionais. Entretanto, eles optaram pela luta de um mundo mais justo, pela luta dos direitos do outro, abdicando muitas vezes de ofertas tentadoras no mundo do trabalho fora da Pastoral e bancando com os próprios esforços o "desfalque" de natureza econômica que essa escolhe traz.
A Utopia proposta em nosso trabalho visa essencialmente dar ênfase à importância de valores fraternos entre os indivíduos e ao já conhecido "trabalho de formiga" que as pessoas realizam, construindo através de bases consistentes, verdadeiros fortes. Em se tratando de seres humanos, este é o trabalho mais árduo e mais essencial para que ocorra qualquer início de mudança na sociedade. É exatamente através desse tipo de "trabalho de formiga" (plantar, construir aos poucos, com muito esforço) que se torna possível um "novo mundo". Valores simples inerentes ao caráter humano se esfacelaram e foram gradativamente perdendo seu sentido, a importância do resgate desses valores (como o perdão, cooperação, empatia, tolerância, respeito, amor ao próximo etc.) é essencial, imensurável na construção de um novo mundo (criando-o a partir da concepção utópica, ideal).

14-) Fontes de pesquisa:
- Entrevista com advogado trabalhador da Pastoral Carcerária: Pedro Ferreira.
- http://www.dhnet.org.br/
- www.carceraria.org.br

Filme: Tropa de Elite 2

sexta-feira, 22 de outubro de 2010 Leave a Comment
Não sou a maior especialista em filmes, assisto poucos quando gostaria de assistir mais, mas de todo modo, adoro cinema nacional. De todos que já foram feitos, assisti poucos, mas posso afirmar que estou satisfeita com a qualidade da maioria. Mas ontem, ao sair do cinema após assistir "Tropa de Elite 2", fiquei sem palavras. O filme não só superava minhas expectativas como todos os outros filmes nacionais que vi. Além disso, é superior a diversos filmes internacionais de ação que já vi - se não disser que a todos (já comentei que adoro 'filme de menino'?). Aliás, acho um crime quem classifica esse filme apenas como "ação". Tropa de Elite 2 tem, além de cenas de ação que já se tornaram específicas do cinema nacional, uma crítica política fortíssima.
É difícil falar de um filme que se gosta muito, mas vou tentar expor tudo que achei, as ligações que encontrei, as observações e ainda assim, vai faltar palavras para definir um filme que foi aplaudido de pé no final.
Sei que diversas pessoas são preconceituosas com o cinema nacional exatamente por mostrar muitas vezes o "lado ruim" do país. Mas, até mesmo esses irão se render ao assistir "Tropa de Elite 2".


Uma nova ótica sobre o surgimento das milícias na cidade do Rio de Janeiro é apresentada nesse filme, com diversas "coincidências" com fatos reais. O fato que ocorre com a jornalista no filme, por exemplo, foi inspirado no triste episódio que ocorreu com jornalistas do Jornal O Dia em 2008.


Há um personagem no filme que claramente foi inspirado em Wagner Montes, apresentador do programa "Balanço Geral" e deputado estadual do Rio de Janeiro (o que me deixou com uma pulga atrás da orelha, mas isso é outra história). O personagem Fraga é inspirado no deputado Marcelo Freixo do PSOL, militante dos direitos humanos e professor - que presidiu a CPI que prendeu diversos milicianos, que só foi aberta em 2008 após a tortura dos jornalistas d'O Dia.
O filme é um retrato político e social não apenas da cidade ou estado do Rio de Janeiro, mas da política de nosso país - e tristemente também da nossa polícia, que em certos casos nos dá apenas a falsa sensação de proteção e liberdade, quando na verdade, estão dando o contrário.

O primeiro filme foi responsável por criar bordões. É impossível alguém nunca ter ouvido "Pede pra sair” ou "O senhor é um fanfarrão". Após "Tropa de Elite 2", é bem provável que frases como "Tá de pomba-girice comigo?" e "Quer me f****? Me beija" virem as novas frases mais faladas do país - tem muita gente por aí que já aderiu ao vocabulário, né Renata? (haha!)



As cenas de ação são mais cruéis na minha opinião. A corrupção da polícia é mais clara ainda. E ao mesmo tempo que você quer rir, você fica estupefato - como na cena da morte do chefe da ADA na rebelião em Bangu I no início do filme. Aliás, em 2002, o líder do ADA foi realmente morto em Bangu I por Fernandinho Beira-Mar.

A atuação de Wagner Moura dispensa comentários (além do quê, ficou tão bonito de terno e cabelo grisalho quanto com a farda preta do BOPE). E o roteiro de José Padilha e Bráulio Mantovani não deixa dúvidas de quem é o inimigo do subtítulo.
No final, o filme me deixou refletindo se realmente há um vilão nisso tudo: se são os milicianos, a polícia corrupta, os políticos, a mídia, a população que acata ou todos nós que não valorizamos o voto que colocamos nas urnas. As eleições para deputado já acabaram, mas o segundo turno da presidência está aí. Pense e reflita sobre seu voto, porque a culpa não é só deles, e sim de todo mundo.

O livro "Elite da Tropa 2" (O 1 é excelente!) foi lançado junto com o filme pela Nova Fronteira e conta o que o filme não contou. Ele é escrito por André Batista, Rodrigo Pimentel, Luís Eduardo Soares e Cláudio Ferraz, o último sendo o único a não ter colaborado na escrita do primeiro volume, Elite da Tropa 1.
Mal posso esperar para ler a história, porque eu realmente fiquei fascinada com o primeiro livro - desde a história até a forma como foi escrito.
E pra você que ainda não viu, deixo vocês com o trailer desse filme que bateu recorde de bilheterias e conseguiu superar o primeiro.